Todas as histórias são iguais?

Se você leu qualquer mangá shonen mainstream na vida, já conhece a fórmula de sucesso com personagens justos, com muita força de vontade e capacidade de superação. Não é ruim nem errado dizer que temos muitos protagonistas comilões, muito fortes (ou com uma força que ainda será despertada), meio inocentes e em busca de mais força. Nos mangás, o mais legal é que a meritocracia quase sempre funciona: se você quer e faz por merecer, você consegue, oras (menos Vegeta que tenta, tenta, mas nunca supera o “verme maldito” Kakaroto)!
Naruto, Goku (Dragon Ball), Meliodas (Seven Deadly Sins), Gon (Hunter X Hunter), Luffy (One Piece)… Cada Yusuke (Yu Yu Hakusho) tem seu Hiei (Killua, Vegeta, Ikki, Zoro) equivalente nas histórias de sucesso, por exemplo.
A base é a mesma para os personagens e também para o desenrolar de algumas histórias: quantas vezes você viu torneios, fases, testes, casas, desafios que exigem a superação pessoal (e quase sempre sacrifícios), esquecer a dor e seguir em frente?
Por isso (e por muitas outras qualidades) que One Punch Man foi sucesso imediato, principalmente para quem já tinha a cultura de assistir animes: ele brincou com tudo o que já conhecemos tão bem e jogou na nossa cara, quebrando a “regra”, um personagem super forte e que não tinha mais o que treinar, superar, essa coisa toda.
Mas isso não vale só para mangás, que, aliás, têm o mérito de evoluir os personagens e criar, a partir dessa estrutura, coisas incríveis e surpreendentes.

A Jornada que todo mundo já ouviu falar…

Por aqui, no ocidente, quantas obras parecem ter seguido o “manual” da Jornada do Herói, de Joseph Campbell? E que tal esse paralelo: Harry Potter/Percy Jackson, Hermione/Annabeth, Rony/Grover, Hogwarts/Acampamento Meio-Sangue, Casas (Grifinória, etc.)/Chalés (Zeus, etc.)?
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É possível identificar uma fórmula diferente para diversas obras: uma música, para tocar na rádio, tem que ter cerca de 3min, repetir o refrão pelo menos três vezes, ter uma dinâmica que quebra a harmonia principal, retomando o refrão em seguida (um dos exemplos). Com algumas variáveis, você faz milhares de músicas. Com quatro acordes, você consegue cantar milhares de melodias. Sério.
Com poucas palavras você cria um hit pop. Que tal rimar: viver com ter, perder, você; razão com emoção, coração e paixão… Quantas você já escutou assim?

Isso é ruim?

Importa se a música que embalou o seu verão (opa!) tinha 3min e três refrões? Se tocou só naquele verão e foi esquecida pela mídia? Se foi considerada pobre, “música ruim”? Você estava na praia, apaixonado, tocou naquele violão surrado, sentado na areia, tudo regado a vinho barato. E o tudo fazia sentido.
Seiya era mais um herói enfrentando desafios para salvar a donzela? Era (ou é, afinal, Seiya nunca desiste e a indústria nunca desiste dele). Mas eu lembro de correr para casa, subir uma ladeira enorme e segurar a antena porque o sinal da Manchete era péssimo, enquanto assistia aos episódios.
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Então, o que realmente importa? É dissecar ou aproveitar? É, com 30 anos, escutar aquela música e rir sozinho de uma memória feliz ou e se repreender porque deveria ter escutado Bach ou The Dave Brubeck Quartet e discutido que “o sistema do país está falido e a sociedade está perdida; para o mundo, vem meteoro!” e todo esse papo?
Por que estamos tão chatos com cada pedacinho do filme, cada trecho que não teve a explicação que queremos (exigimos!) ou o final que não gostamos e por isso é ruim)?

Além do umbigo tem um mundo

Durante a CCXP fiquei espantado com o público de Shadowhunters! Não passei do episódio piloto, mas não é para mim. Na coletiva, eu concordei com a cabeça (para mim mesmo porque sou desses) e comentei com a pessoa ao lado, “caramba, eles têm um sucesso incrível, hein”?. Ela, a colega jornalista, estava tremendo de emoção, vale mencionar, só de estar ali na mesma sala que o elenco.
Você pode concordar com a cabeça para você mesmo ou fazer um vídeo no YouTube, falar como é ruim de forma ácida (virar um sucesso na internet por isso), afinal, aquela história é um “desserviço cultural”! Mas, na verdade, é só mais uma história muito semelhante a outras centenas de histórias com elenco bonito, com romance, o chamado para a aventura, a descoberta de um mundo novo, a superação…

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Exemplo de “estrutura em três atos”.

Mas se tudo tem uma estrutura tão similar, por que o estresse? Por que a única opção para o crítico que pensa diferente de você é que ele foi pago pelo estúdio, por isso ele diz que gostou daquele filme “que é um lixo”? E se tudo segue essa estrutura, todas as histórias são iguais? Se fosse essa a verdade, estaríamos em um loop infinito e eu gostaria loucamente de sair da Matrix, por favor!
O fato é que cada história mexe conosco de uma maneira. Talvez um diálogo certeiro, que era exatamente o que você precisava escutar, o personagem secundário divertido que te lembrou alguém, uma separação na trama que te fez refletir, aquela morte que ninguém previra! A pitada de genialidade criativa que faz você parar um instante e xingar elogiosamente o autor.
A estrutura básica ciclica fala conosco porque somos humanos e o ciclo é parte da nossa existência.

O que importa?

Apostar em personagens com personalidades e aparências tão diferentes é como apostar em vários números ao mesmo tempo na roleta: a chance de ganhar é maior, certo?
De New Kids os The Block a Backstreet Boys, de Senhor dos Anéis a Jogos Vorazes, ou na base dos animes de sucesso, quase sempre há um inocente, um com “cara de mau” mas de coração puro, um sábio, um que fala muito e faz coisas bestas. Alguém vai falar diretamente com você.
Dizendo assim, fica parecendo que cada obra é maquiavelicamente planejada para fazer sucesso, que tudo é produto e que inocente é quem acredita que há verdade em alguma obra da cultura pop! Há mesmo a mentalidade de lucrar ao juntar uns caras bonitos que sabem cantar, dançar e faturar durante uns anos.
Mas isso não muda a sua experiência.

Alguns que conseguem brincar com as estruturas: Alan Moore, Douglas Adams, Carl Barks
Alguns que conseguem brincar com as estruturas: Alan Moore, Douglas Adams, Carl Barks

Temos ainda a assinatura dos gênios que pensaram em coisas que não foram mencionadas antes e transmitem de maneira simples algo complexo, o diretor que brincou com todos os elementos e criou algo totalmente novo, o autor que dispensou qualquer estrutura e colocou o clímax no começo da história! O toque pessoal que vem das referências de cada roteirista, compositor, poeta.
E quando você permite e o criador fala com você através da obra, quando a vida dele conversa com a sua, não tem mais jeito: você é fisgado. Vai querer sua carta para Hogwarts, não importa a estrutura que J.K Rowling usou e qualquer blá, blá, blá que te falem. Vai desejar estar na Millennium Falcon e usar a Força, vai ensaiar um Kamehameha! Vai até tatuar aquela frase que alguém disse no episódio final daquela série e que mudou sua vida.
Você foi fisgado.
E ser fisgado é como se apaixonar: não há estrutura, não há estudo, ciência, dispensa explicações. Nada mais importa.
Via: JovemNerd - Pedro Duarte.
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